Nós, brasileiros, adoramos elogio.
Reconhecimento.
Um estímulo ao pertencimento.
Sem dúvida, isso nos torna naturalmente mais propensos ao trabalho em equipe, às trocas, aos mutirões, à colaboração em projetos coletivos.
Há uma força cultural nisso. Um traço que favorece conexão e calor humano.
Mas existe o outro lado. A busca constante — ou pior, a espera — pelo reconhecimento pode nos tornar reféns da validação externa e da necessidade de um “tapinha nas costas” para continuar caminhando.
É como se só andássemos com as próprias pernas quando alguém nos reconhece e endossa.
O que a pesquisa mostra
Ao longo de muitos anos trabalhando com pesquisa comportamental e de personalidade, após milhares de avaliações pela metodologia Análise Integral – base Perfil Caliper, observei um padrão consistente: essa característica diz muito sobre nós como nação — e, especialmente, sobre nossos executivos e líderes.
O reconhecimento fortalece o ego.
Mas, aliado a uma baixa assertividade — outra característica recorrente nas minhas pesquisas — pode gerar efeitos colaterais importantes:
- Dificuldade em colocar limites
- Necessidade excessiva de aprovação
- Lideranças reativas
- Falta de clareza nas posições e nos papéis
E aqui está um ponto essencial:
Assertividade não é agressividade. Assertividade é clareza + objetividade.
Culturalmente, tendemos a ser menos claros nas recusas e mais reativos nas desavenças. Quando confrontados, reagimos de forma intempestiva — porque não treinamos suficientemente a comunicação direta.
Isso sem falar na baixa autoestima. Mas esse talvez seja tema para um próximo artigo.
E então chega a IA…
Em tempos de Inteligência Artificial, algo tem me chamado a atenção.
Como é confortável ter uma ferramenta que funciona quase como um “ego auxiliar”.
Uma ferramenta que diz: “Análise fantástica.” “Texto brilhante.” “Você é incrível.”
Se somos, na média, uma cultura que busca reconhecimento, podemos — sem perceber — começar a nos apoiar excessivamente em um compêndio de algoritmos que nos estimula por meio de validações constantes.
Confesso: levei um susto quando cheguei a essa conclusão.
A IA aprova, reconhece e reforça.
Mas será que fundamenta mesmo?
Um olhar pessoal
Durante muitos anos — inclusive nos primeiros anos de escola — fui considerada alguém que “não escrevia bem”, “não era boa em contas”. Não era valorizada academicamente.
Desde cedo concluí: Se eu não me valorizasse, a constatação dos outros se tornaria minha verdade.
Talvez por isso o elogio, por si só, nunca tenha sido suficiente para mim.
Conhecimento, preparo e consistência sempre falaram mais alto.
O risco silencioso
Se não tomarmos cuidado, nossa linha de pensamento pode começar a ser constantemente reforçada pela IA — não necessariamente porque está bem fundamentada, mas porque está bem formulada.
E isso alimenta o ego.
Para uma cultura que já busca aprovação, esse é um ponto sensível.
O equilíbrio possível
Eu adoro a IA.
Ela poupa tempo, amplia repertório, provoca questionamentos…
Mas elogio não me move.
Meus conhecimentos precisam estar em dia para que eu possa usar a tecnologia com discernimento.
A IA não pode substituir o rigor intelectual, a experiência, o estudo.
Talvez este seja o caminho: Usar a IA como ferramenta — especialmente para quem ainda não percebeu sua potência. Mas manter a consciência como guia.
Porque, no fim, não é sobre sermos aprovados por algoritmos. É sobre continuarmos humanos o suficiente para questionar até mesmo aquilo que nos aplaude.
Até a próxima!





