O DIA EM QUE O MUNDO NÃO PARA — MAS O CORAÇÃO SIM

Daniela Ludak

Há dores que não cabem no calendário.

Mas, ainda assim, o calendário insiste.

Uma mãe me dizia, em sessão, que o Dia das Mães se tornou, para ela, um marco silencioso de ausência. Foi nesse dia que perdeu um dos filhos. E, desde então, enquanto o mundo celebra, ela revive.

E o mais difícil, segundo ela, não é apenas a dor. É perceber que o mundo continua.

As pessoas seguem suas rotinas, suas agendas, suas comemorações. A vida — como dizem — não para. E, de fato, não para.

Mas há algo que raramente se diz: para quem perde, algo dentro para. Não por falta de força, mas porque há perdas que reorganizam o tempo interno.

O luto não é apenas saudade. É uma reconstrução silenciosa da própria existência.

E talvez uma das experiências mais solitárias do luto seja exatamente essa: a percepção de que o entorno não sente como você sente e nem poderia.

Cada um está vivendo sua própria história.

Cada um está sustentando suas próprias dores — visíveis ou não.

E então vem a escolha.

Não a escolha de não sofrer — porque isso seria desumano. Mas a escolha de como existir com essa dor.

Essa mãe me trouxe uma imagem que não se esquece: ela disse que, neste Dia das Mães, sabe que estará “um caco”.

Mas decidiu ser um “caco reluzente”.

Não inteiro, resolvido ou curado.

Mas, ainda assim… reluzente.

Há uma sabedoria profunda nisso.

Porque, muitas vezes, a vida não nos devolve o que foi perdido.

Mas nos convida — quase como um sussurro — a encontrar alguma forma de luz, mesmo nas partes quebradas.

Ser um “caco reluzente” não é romantizar a dor.

É reconhecer que, mesmo quebrados, ainda podemos refletir algo ao mundo.

Um gesto, olhar ou presença.

O mundo não para.

Mas escolher quem somos, mesmo diante da dor, significa — antes de tudo — estar presente para si.

E, depois, inevitavelmente, para o entorno.

Confesso que, em todo atendimento, reunião ou processo em que estou inserida, costumo perceber a beleza das elucubrações humanas — na criatividade, no silêncio, na essência.

Mas, ao escutar a fala dessa mãe, fiquei profundamente tocada.

Pois, na verdade, ela carrega muito da própria experiência da civilização humana: a de todos — homens, mulheres, mães ou não — que passaram, passam e ainda passarão pelas vivências inevitáveis da perda, em suas mais diversas formas, da reconstrução, em qualquer escala, e da escolha de continuar existindo apesar de tudo o que se vive.

Escrevo este texto como uma reverência a todas as mães — presentes ou ausentes, inteiras ou em pedaços.

Que, à sua maneira, sigam sendo… reluzentes.

Até a próxima.

Daniela Ludak

Daniela Leluddak

Consultora corporativa, psicóloga clínica, palestrante e colunista com mais de 25 anos de experiência. Reconhecida por seu trabalho no desenvolvimento humano, apoia líderes, famílias e empresas na criação de ambientes colaborativos, humanizados e de alta performance. É idealizadora da metodologia Análise Integral, que une psicologia, tecnologia e espiritualidade para capacitar pessoas e equipes a alcançar seu máximo potencial.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Postagens

Newsletter

Deixe seu contato e receba nossa newsletter