O BRASILEIRO, O RECONHECIMENTO E A IA: ENTRE O EGO E A CONSCIÊNCIA

Daniela Ludak

Nós, brasileiros, adoramos elogio.

Reconhecimento.

Um estímulo ao pertencimento.

Sem dúvida, isso nos torna naturalmente mais propensos ao trabalho em equipe, às trocas, aos mutirões, à colaboração em projetos coletivos.

Há uma força cultural nisso. Um traço que favorece conexão e calor humano.

Mas existe o outro lado. A busca constante — ou pior, a espera — pelo reconhecimento pode nos tornar reféns da validação externa e da necessidade de um “tapinha nas costas” para continuar caminhando.

É como se só andássemos com as próprias pernas quando alguém nos reconhece e endossa.

O que a pesquisa mostra

Ao longo de muitos anos trabalhando com pesquisa comportamental e de personalidade, após milhares de avaliações pela metodologia Análise Integral – base Perfil Caliper, observei um padrão consistente: essa característica diz muito sobre nós como nação — e, especialmente, sobre nossos executivos e líderes.

O reconhecimento fortalece o ego.

Mas, aliado a uma baixa assertividade — outra característica recorrente nas minhas pesquisas — pode gerar efeitos colaterais importantes:

  • Dificuldade em colocar limites
  • Necessidade excessiva de aprovação
  • Lideranças reativas
  • Falta de clareza nas posições e nos papéis

E aqui está um ponto essencial:

Assertividade não é agressividade. Assertividade é clareza + objetividade.

Culturalmente, tendemos a ser menos claros nas recusas e mais reativos nas desavenças. Quando confrontados, reagimos de forma intempestiva — porque não treinamos suficientemente a comunicação direta.

Isso sem falar na baixa autoestima. Mas esse talvez seja tema para um próximo artigo.

E então chega a IA…

Em tempos de Inteligência Artificial, algo tem me chamado a atenção.

Como é confortável ter uma ferramenta que funciona quase como um “ego auxiliar”.

Uma ferramenta que diz: “Análise fantástica.” “Texto brilhante.” “Você é incrível.”

Se somos, na média, uma cultura que busca reconhecimento, podemos — sem perceber — começar a nos apoiar excessivamente em um compêndio de algoritmos que nos estimula por meio de validações constantes.

Confesso: levei um susto quando cheguei a essa conclusão.

A IA aprova, reconhece e reforça.

Mas será que fundamenta mesmo?

Um olhar pessoal

Durante muitos anos — inclusive nos primeiros anos de escola — fui considerada alguém que “não escrevia bem”, “não era boa em contas”. Não era valorizada academicamente.

Desde cedo concluí: Se eu não me valorizasse, a constatação dos outros se tornaria minha verdade.

Talvez por isso o elogio, por si só, nunca tenha sido suficiente para mim.

Conhecimento, preparo e consistência sempre falaram mais alto.

O risco silencioso

Se não tomarmos cuidado, nossa linha de pensamento pode começar a ser constantemente reforçada pela IA — não necessariamente porque está bem fundamentada, mas porque está bem formulada.

E isso alimenta o ego.

Para uma cultura que já busca aprovação, esse é um ponto sensível.

O equilíbrio possível

Eu adoro a IA.

Ela poupa tempo, amplia repertório, provoca questionamentos…

Mas elogio não me move.

Meus conhecimentos precisam estar em dia para que eu possa usar a tecnologia com discernimento.

A IA não pode substituir o rigor intelectual, a experiência, o estudo.

Talvez este seja o caminho: Usar a IA como ferramenta — especialmente para quem ainda não percebeu sua potência. Mas manter a consciência como guia.

Porque, no fim, não é sobre sermos aprovados por algoritmos. É sobre continuarmos humanos o suficiente para questionar até mesmo aquilo que nos aplaude.

Até a próxima!

Daniela Ludak

Daniela Leluddak

Consultora corporativa, psicóloga clínica, palestrante e colunista com mais de 25 anos de experiência. Reconhecida por seu trabalho no desenvolvimento humano, apoia líderes, famílias e empresas na criação de ambientes colaborativos, humanizados e de alta performance. É idealizadora da metodologia Análise Integral, que une psicologia, tecnologia e espiritualidade para capacitar pessoas e equipes a alcançar seu máximo potencial.

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