O QUE A CURIOSIDADE TEM A VER COM A SUA CARREIRA?

Daniela Ludak

O que acontece entre perceber uma possibilidade e ter disposição para explorá-la?

Você percebe que uma atividade poderia ser feita de outra maneira. Conversa com alguém, pesquisa, consulta uma ferramenta de inteligência artificial e encontra alternativas. Na reunião seguinte, porém, tudo continua igual.

A ideia ficou com você. Ou foi apresentada e recebeu um “sempre fizemos assim”. Talvez tenha despertado interesse, mas ninguém encontrou tempo para levá-la adiante.

A curiosidade estava presente. O que aconteceu com ela depois?

Essa pergunta diz muito sobre o desenvolvimento da carreira.

Podemos buscar respostas e descobrir possibilidades sem oferecer espaço para que elas se desenvolvam. Uma dúvida pode revelar uma dificuldade, uma necessidade de aprendizagem ou uma oportunidade de melhoria. Explorar o que ela revela exige atenção, envolvimento e apoio.

O receio de parecer despreparado

Quando somos crianças, uma resposta costuma despertar outra pergunta. Ao crescer, podemos começar a conter essa disposição, especialmente quando acreditamos que já deveríamos saber.

No trabalho, observo pessoas que não compreendem uma orientação, mas ficam em silêncio; têm dúvidas sobre uma decisão, mas evitam questionar; desconhecem uma ferramenta, mas sentem vergonha de pedir ajuda.

Nas pesquisas que coordeno na Caddan, com participantes brasileiros entre 35 e 55 anos, a prestatividade aparece como uma característica recorrente.

A disposição para ajudar e cooperar pode contribuir para as relações. Entretanto, quando se associa à preocupação excessiva em não desagradar, pode dificultar a clareza da comunicação.

Para evitar o confronto, a pessoa deixa de expressar uma dúvida ou uma perspectiva diferente. Quando há pouca confiança em si, pode interpretar seu desconhecimento como sinal de incompetência e se comparar com quem parece saber mais.

Em que momento começamos a acreditar que ser competente significa ter todas as respostas?

Pedir esclarecimentos ajuda a compreender o trabalho. Apresentar uma dúvida pode ajudar colegas que também não entenderam. Uma discordância, expressa com respeito e fundamentação, pode revelar algo que ainda não foi considerado.

O silêncio tem consequências, mesmo quando parece a escolha mais confortável.

Você leva a sério o que descobre?

A curiosidade aparece na disposição para investigar um problema antes de propor uma solução, compreender o que mudou para um cliente e ouvir outra perspectiva.

Ela exige presença: atenção ao que acontece, ao que nos inquieta e ao que alguém está tentando comunicar. Às vezes, precisamos permanecer um pouco mais na conversa, sem apressar uma resposta, para entender a questão.

Essa atenção também precisa se voltar para nós.

O que aquela descoberta desperta? Interesse, insegurança, resistência? Por que uma possibilidade nos atrai e, ao mesmo tempo, nos faz recuar?

Podemos descartar uma ideia porque ela exige negociação, aprendizagem ou trabalho adicional. Podemos querer avançar, mas depender de recursos ou de apoio que ainda não temos.

Levar uma percepção a sério envolve examiná-la: buscar informações, confrontar interpretações, reconhecer limites e considerar um próximo passo possível.

Esse passo pode ser uma conversa, um pedido de ajuda ou um pequeno teste. É uma forma de dar continuidade àquilo que chamou nossa atenção.

Quando a experiência encerra a conversa

A experiência oferece repertório. Ajuda a reconhecer situações, antecipar dificuldades e avaliar caminhos. Mas pode limitar nosso olhar quando o “já vivi isso” se transforma em “não preciso olhar novamente”.

Uma situação conhecida pode envolver outras pessoas, novas tecnologias e mudanças nas necessidades dos clientes. A familiaridade pode nos fazer passar depressa demais por essas diferenças.

A curiosidade ajuda a atualizar a experiência. Permite usar o que aprendemos enquanto investigamos o que mudou.

Essa abertura pode existir em qualquer idade. Um profissional no início da carreira pode resistir a outras perspectivas. Alguém com décadas de atuação pode continuar interessado em aprender e experimentar.

Sua experiência desperta sua curiosidade ou encerra suas perguntas?

A criatividade precisa de espaço para acontecer

Uma boa pergunta pode mudar a maneira como compreendemos um problema.

Ao investigar, reunimos referências, conectamos conhecimentos e encontramos possibilidades que não estavam evidentes.

Uma conversa com um cliente pode inspirar um serviço. A troca entre áreas pode revelar uma melhoria em um processo. Conhecer outra cultura, uma linguagem artística ou uma atividade diferente pode ampliar o repertório que levamos para o trabalho.

Esse movimento pede interesse e ousadia para explorar o desconhecido. Também pede disposição para testar, receber críticas e ajustar a proposta.

Entre perceber uma possibilidade e colocá-la em prática, existe um trabalho que precisamos estar dispostos a realizar. A inovação pode começar com uma pergunta e ganhar forma na colaboração entre pessoas que se envolvem com ela.

Depois da resposta da IA, o que você faz?

A inteligência artificial pode ajudar a organizar informações e explorar alternativas. Mas uma proposta que parece interessante na tela precisa ser examinada diante da realidade de uma equipe, de um cliente ou de uma organização.

  • Há condições para realizá-la?
  • O problema foi bem compreendido?
  • Quem precisa participar?
  • Que consequências merecem atenção?

Vale observar o que fazemos depois da consulta.

  • Levamos uma possibilidade para discussão?
  • Buscamos dados para avaliá-la?
  • Experimentamos algo?
  • Ou encerramos a investigação satisfeitos por ter recebido uma resposta?

A curiosidade ganha valor profissional quando aquilo que aprendemos contribui para nosso entendimento, nossas decisões e nossas relações de trabalho.

Que parte dessa investigação você continua fazendo por si mesmo?

Sua equipe pode pensar em voz alta?

Quando alguém diz “não entendi”, encontra abertura ou impaciência?

Quando apresenta uma alternativa, recebe atenção ou é visto como alguém que está criando mais trabalho?

Essas reações influenciam a disposição da equipe para participar. Se as dúvidas provocam constrangimento e as sugestões são descartadas sem análise, as pessoas podem começar a guardar o que percebem.

O líder pode abrir espaço ao reconhecer suas próprias dúvidas, pedir outras perspectivas e ajudar a equipe a investigar uma questão. Também pode oferecer condições para que uma ideia seja avaliada e testada.

Quando só valorizamos quem responde rapidamente, podemos deixar de ouvir quem percebeu um problema que ainda precisa ser compreendido.

Esse compromisso também faz parte das relações entre colegas. Escutar alguém, compartilhar conhecimento e ajudar a desenvolver uma proposta são maneiras de apoiar a aprendizagem.

Às vezes, uma ideia precisa encontrar uma pessoa disposta a dizer: “Vamos entender melhor isso”.

Possibilidades em qualquer etapa da carreira

Aos 20, aos 40 ou depois dos 60, a curiosidade pode ajudar a explorar caminhos e dar novas aplicações à experiência.

O artigo do Sebrae RS sobre empreendedorismo depois dos 60 informa que o Brasil tem 4,5 milhões de empreendedores nessa faixa etária, segundo os dados citados na publicação.

Esse movimento convida a pensar nas possibilidades de atuação ao longo da vida. Conhecimentos, habilidades e relacionamentos podem contribuir para novos projetos quando encontram necessidades reais e condições para se desenvolver.

Uma descoberta pode levar a uma pequena mudança, a uma nova aprendizagem ou a um projeto maior. O próximo passo depende da realidade de cada pessoa, dos recursos disponíveis e das relações que podem apoiar esse caminho.

Para continuar essa reflexão, deixo algumas perguntas:

  • Quando foi que você parou de perguntar ou de explorar aquilo que suas perguntas revelam?
  • O medo de parecer despreparado está limitando sua carreira?
  • Se a IA tem respostas, o que você ainda tem vontade de perguntar?
  • Que espaço você oferece para as dúvidas e ideias das pessoas ao seu lado?
  • O que você pode fazer com aquilo que já percebeu?

Talvez uma delas permaneça com você depois da leitura. Dê atenção a ela. Pode haver algo importante aí.

Esta reflexão amplia o tema abordado na coluna Carreira e Mercado de Trabalho, na CBN. Ouça a conversa na íntegra e continue esse diálogo conosco.

Daniela Ludak

Daniela Leluddak

Consultora corporativa, psicóloga clínica, palestrante e colunista com mais de 25 anos de experiência. Reconhecida por seu trabalho no desenvolvimento humano, apoia líderes, famílias e empresas na criação de ambientes colaborativos, humanizados e de alta performance. É idealizadora da metodologia Análise Integral, que une psicologia, tecnologia e espiritualidade para capacitar pessoas e equipes a alcançar seu máximo potencial.

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